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O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Marco, precisamos de falar

17.07.20, Elisa

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O Eduardo Fernandes é o nosso participante mais assíduo e também um importante crítico de todos os textos. Natural do Brasil, coisa que ainda se vai notando nos seus textos, o Eduardo lê muito, informa-se, estuda, experimenta. Traz sempre algo de novo e construtivo. Em Julho, aceitou o desafio de escrever diálogo e este foi o resultado.

*  *  *

- Marco, precisamos de falar.

 

- Não, Marco, não vou deixar para depois. Eu tô cansada disso, sabes? É sempre a mesma estória. Queres liberdade, queres sair com os teus amigos, mas eu é que tenho que ficar sozinha na sexta a noite.

- Eu sei que tu trabalhas muito, que ficas até tarde no escritório, mas a culpa não é minha.

 

- Também trabalho o dia inteiro. A diferença é que, enquanto tu vais divertir-te, eu tenho que ver Netflix e estar cheia de boa disposição quando apareces.

- Eu sempre te dei espaço, Marco. Não podes reclamar disso. Sempre fui compreensiva também.

 

- Tás a achar o quê? Que eu não relevo as merdas que tu fazes? Claro que relevo.

 

- O quê? Tás de sacanagem, só podes estar. Eu relevei aquela mancha de batom na tua camisa, Marco. Aquela do dia em que foste ao Irish Pup com o Ricardo. Não sabia que o Ricardo tinha pas- sado a usar batom, muito menos que tu curtias curtir com o Ricardo de Batom.

- Pois… Entendi errado também a mensagem da tal de Marta que vi no teu telemóvel certo? Como é que era mesmo? Ah! Aquela noite foi inesquecível. Naquela noite não tinhas ido à Vagos assistir ao concerto do Behemoth. O que é que vocês os dois fizeram assim de tão inesquecível num concer- to de death metal? Stage diving de mãos dadas, seu cabrão.

- Para com isso, Marco! Seja homem pela menos uma vez da vida e admite que tu me traístes com aquela putéfila.

- NÃO MARCO, PORRA! ADMITE, CARALHO!

 

— …

 

- Marco, eu amo-te. Não quero terminar contigo. A verdade é que eu já não consigo estar longe de ti.

- Não sei, Marco… Magoaste-me muito com isso.

 

- Eu também… Mas não é fácil perdoar uma traição.

 

- Prometes que nunca mais vais fazer isso?

 

- Mesmo?

 

- Então eu perdoo-te. Vamos esquecer isso, tá?

 

- Marco, eu… tenho algo a dizer-te.

 

- Marco, tu estavas em vagos e eu estava mesmo irritada, a pensar na mancha de batom.

 

- Não… Bem, a verdade é que o Zé me ligou e eu estava deprimida… Fomos comer qualquer coisa juntos e eu comecei a desabafar e quando caí em mim, já estávamos na cama.

- Eu perdoei-te, Marco. E tu traíste-me mais do que uma vez.

 

- Eu sei que tens razão para estares assim, mas perdoa-me também. Não é mais difícil para ti do que foi para mim.

- Marco, a única coisa que importa aqui é se tu me amas ou não. Tu amas-me?

 

- Marco, eu fiz-te uma pergunta só. Tu amas-me? Sim ou não.

 

- Então perdoa-me por que eu também te amo. Prometo que nada disso vai acontecer novamente. Foi um deslize... Foi só um deslize.

Raquel olhou para o espelho, terminou de passar o batom vermelho na boca e sorriu. Assim que se viu ali, com o seu corpo em formato de violão perfeitamente ressaltado naquele vestido preto, curto e bem justo, percebeu exatamente o que Marco sentiria assim que a visse chegar e como reagiria.

Saiu do prédio, entrou no uber que já a esperava e seguiu até ao restaurante, onde ele a recebeu com um beijo. Sentou-se, pediu uma margarita e olhou-o bem nos olhos.

- Marco, precisamos de falar.

Cozinhas acatitadas

14.07.20, Elisa

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Ana Carolina Helena, que se juntou ao grupo logo no primeiro encontro, mas, vicissitudes da vida, só agora pôde regressar. A participante aceitou os dois desafios: falar sobre amizade e integrar diálogo em prosa. Com um texto destes só podemos dizer: bemvinda de volta, Ana Carolina!

 

- Vou pôr água a aquecer.

- Dois segundos. – vociferei para o ar, atropelando mentalmente as últimas palavras da página que estava a ler, mal sentada na cadeira, enrolada sobre mim mesma.

Sempre viveste em casas com cozinhas acatitadas e janelas estreitas, onde a luz entra amarela, mas tímida, como se fossem sempre seis da tarde de uma tarde de Setembro, das réstias do Verão. Uma luz que amolece qualquer um, mas não a ti. As nossas tardes de estudo foram sempre feitas de uma sonolência concentrada que não se pode medir em minutos, mas ao ritmo dos capítulos de matéria desbravada, apenas interrompida pela fome de horas e horas em que nos fazíamos companhia, alheados, cada um nos seus novelos mentais.

- Massa?

- Sim, é mais rápido. 

Concentro-me sempre muito quando tenho que acender um fósforo, em especial quando tenho de acender um fósforo numa das tuas cozinhas amarelas. Os bicos antigos a gás, que raramente limpas com pormenor, são por vezes teimosos e não pegam logo à primeira. Procuro fazer deste ato, à partida simples, mas que a mim, como já notei requer uma certa concentração, o gesto mais subtil, mais harmonioso e coordenado, para que nada te desperte desse sono de reflexão. A minha maior prova de amizade é saber coibir-me de tiradas banais e velar-te esses silêncios profundos, de onde regressas sempre com os olhos sempre mais brilhantes.

- Já acabei o livro que me trouxeste há umas semanas.

- Ai sim? E que tal? Encontraste-lhe alguma parte interessante?

Devo ser uma figura curiosa de ver quando faço estas perguntas tolas, já a saber que sim, e que vais já discorrer sobre aquilo que te chamou mais a atenção. E que daqui a uns minutos vamos estar a sorrir-nos, satisfeitos, por nos termos demorado um pouco mais exatamente no mesmo parágrafo banal de um capítulo qualquer. Em miúda, os livros eram os meus melhores amigos. Lia-os acocorada atrás das cortinas bege e gastas pelo sol da minha avó, escondida dos barulhos da casa. Nas tuas cozinhas amarelas, sempre houve silêncio, de modo que deixei de me esconder, mas continuo a virar as páginas contorcida sobre a cadeira das visitas.

- Se eu um dia fosse trabalhar para fora, ias-me lá visitar?

- Claro – disse, sincera, mas com um tom jocoso e a sobrancelha esquerda levantada -, ia lá visitar-te a uma Sexta-feira à noite, cozer-te esparguete quando chegasses a casa espapaçado da semana no escritório. Vá, apaga isso. Vamos jantar.

Teté e o bolo

13.07.20, BeatrizCM

 

O tema do encontro d'O Primeiro Capítulo de Julho foi "Amizade", mas também poderia ter sido... açúcar!

O texto que se segue, da autoria de uma das organizadoras do grupo (Beatriz Canas Mendes, ou seja, eu!) também menciona a existência dum bolo, como o da Andreia Esteves. No entanto, apesar dessa traço comum, é bastante diferente. Ora, leiam...

 

Sempre poderia fingir que a festa era sua. Os pratos estavam na mesa, os convidados prestes a chegar. Havia pudim de ovos e brigadeiro para a sobremesa, apesar de o prato principal ser uma salada com rúcula e tomate cherry. A toalha da mesa era azul escura, para não se verem manchas de molho e das bebidas nas fotografias.

- E que tal um chá frio? Estou cheia de sede - comentou a amiga Júlia, ofegante por causa do calor, do entusiasmo e do barrigão. Era o terceiro bebé, o primeiro rapaz, e oxalá nascesse como o pai, cujas qualidades já se verificavam no filho por nascer (senhor do seu nariz, noctívago, comunicativo, sempre sorridente desde a segunda ecografia). Júlia movimentava-se pela sala com graça, embora mal levantasse os pés e tivesse engordado vinte quilos. Dispunha pequenos papéis em cima da mesa com os nomes das convidadas e de alguns dos maridos que se iriam juntar, mas as crianças tinham um espaço só seu, à sombra do pessegueiro no jardim. Júlia sorria e trauteava os favoritos da rádio, enquanto dava os últimos retoques na decoração.

Sempre poderia fingir que a festa era sua; mas, com tanta certeza quanto a de se chamar Teresa, Teté faria tudo ao contrário. Provavelmente não faria sequer uma festa, e seriam as amigas a organizá-la como surpresa, porque o primeiro bebé de cada uma é sempre especial. Ao segundo, com a novidade desvanecida, passariam a combinar um almoço com prendas. Ao terceiro, apenas uma mensagem de parabéns e muitas felicitações efusivas no Facebook.

Sem rancor ou vaidade, ultimamente Teté acumulava e-mails com pedidos de opinião sobre livros auto-publicados e primeiras obras escritas, redigidos por ilustres desconhecidos que lhe descobriam o endereço no site da editora. Aqui e ali, abria e-mails da imobiliária e confirmações de consultas com a terapeuta. Não falava com o ex-marido há duas semanas, mas até estava aliviada.

Esta era a terceira gravidez de Júlia em cinco anos, por isso ela mesma é que se encarregara do chá do bebé, e também por isso Teté já começara a esquecer-se da amiga magra, que se enfiava em mini-saias e tops transparentes para ir jantar fora. Teté tinha tantas saudades desses tempos, em que o útero ainda não se tornara uma ferramenta de validação tanto pública quanto privada, mas de momento admirava-se perante o privilégio de assistir a tamanha alegria na vida alheia. Afinal, Júlia era a sua melhor amiga.

Finalmente, Júlia sentou-se para beber o chá de mirtilo. Ainda só estavam ali as duas, sem que ninguém as pudesse ouvir durante o quarto de hora seguinte.

- Não sei o que faria sem ti, meu doce – disse a grávida.

- Provavelmente, pagarias a uma empresa de catering – Teté riu-se – mas a verdade é que fiz tudo como se também fosse uma festa para mim.

E, se calhar, era mesmo uma festa para si, um membro necessário e imprescindível na vida daquela família. Dentro de semanas, nasceria o seu afilhado António. Oxalá revelasse ter todas as melhores qualidades, não só do pai, como ainda da mãe e das irmãs mais velhas. Oxalá pudesse ser sempre feliz, rodeado de gente tão feliz como aquela mãe que lhe calhara.

Para comemorar, Teté não quis esperar pelos convidados, partiu a primeira fatia dum bolo de cenoura acabado de entregar e esqueceu-se dos seus bebés que nunca viriam a conhecê-la.

A Rita irrita-me

10.07.20, Elisa

 

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Para a  Andreia Esteves escrever não é novidade, ou não fosse ela já uma escritora freelancer. Ainda assim, pela primeira vez este mês, juntou-se a'O Primeiro Capítulo, numa estreia que nos impressionou. Aceitou o desafio de escrever sobre Amizade e trouxe-nos, de forma textual, a Rita, sua amiga na adolescência. 

Hemingway diz para escrevermos com clareza sobre aquilo que dói, mas eu nem sempre tenho essa disciplina. Ora estou sentada à espera de uma inspiração divina, ora injecto vitaminas de confiança só para depois olhar para o texto com desdém e concluir que está uma porcaria. Nestes momentos de frustração de escritora amadora, lembro-me da Rita. Já não tenho 13 anos e eu e a Rita já não achamos que o mundo gira à nossa volta e que somos as melhores escritoras do mundo. Antes pensávamos que sim. Julgávamos que todos à nossa volta eram uns sortudos por poderem presenciar o nosso génio e mais tarde vir a dizer “eu conhecia-as antes da fama, sabias?”
É engraçado, agora que penso nisso. Acho que era isso que os impressionistas queriam dizer quando afirmavam gostar de saber pintar como as crianças. Talvez não se estivessem a referir à técnica propriamente dita, aos traços e à cor, mas sim à inocência e ingenuidade infantil.
De facto, quando somos crianças, achamo-nos capazes de tudo. É só com o confronto da adolescência que a auto-crítica nasce. Após esse momento, não mais somos capazes de recuperar o espírito de ignorância infantil que nos levava a pintar dois riscos vermelhos numa folha, dizer que tínhamos desenhado a mãe e proclamarmos a criação de uma magnífica obra de arte. Talvez crescer seja isso. Aprender a lidar com nulidades burocráticas desejando secretamente obter a confiança que transbordava quando frequentávamos a pré-primária.
A Rita dava-me confiança. Reuníamo-nos na sua sala de estar e discutíamos a última coisa que tínhamos escrito com um ar sério e importante. Era suposto sermos imparciais, mas eu não conseguia dizer uma palavra negativa a uma amiga. Ela também não. Normalmente, era quando lanchávamos que a inspiração para escrever surgia. Nessas alturas, deixávamos tudo para trás: o bolo de chocolate, as cerejas, o que quer que fosse e descíamos pelas escadas a correr, na ânsia de encontrar uma esferográfica e um bocado de papel.
Quando voltávamos a subir as escadas, ela oferecia-me sempre mais uma fatia de bolo, mesmo depois de eu lhe dizer que já estava cheia.

Por vezes, a Rita também me conseguia enervar. Como quando ia ao armário dos jogos e tentava explicar-me novamente como se jogava xadrez, mesmo sabendo que eu era um caso perdido e nunca decorava as regras. Quando trocávamos livros das nossas estantes e ela nunca cumpria o prazo de devolução. Quando reparava numa roupa nova que eu trazia e não comentava. Nem que me ficava bem, nem mal, nem assim-assim. Quando se deixou crescer e abandonou a sua companheira de escrita.
Hemingway tem razão. Escrever dói e escrever sobre a Rita dói um pouco. Mas também liberta. Ao escrever sobre ela, não consigo deixar de ouvir o som do seu riso contagiante, quando olhava para mim do outro lado da mesa e dizia: “Senhora escritora, tira outra fatia de bolo.”

Julho - Amizade, Diálogo ou os dois

07.07.20, Elisa

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No nono encontro d'O Primeiro Capítulo, que ocorreu no dia 6 de julho, demos dois desafios aos nossos escritores. Escrever sobre amizade, escrever diálogo ou, ainda, para os mais arrojados, escrever diálogos de alguma forma relacionados com Amizade.

Desde o início que temos optado por temas bem cliché. Isto porque percebemos que esses eram  os temas levavam a uma maior variedade de abordagens, tornando o encontro muito mais rico e interessante. Porque o nosso objetivo passa muito por melhorar a técnica e por sugestão de um participante, este mês decidimos puxar também por um dos géneros literários mais difíceis, o diálogo.

Durante a semana iremos publicar cada texto que foi lido e comentado durante o encontro e, assim, poderemos comprovar uma coisa: não desiludiram.

Para além dos textos e comentários ao mesmo, houve ainda espaço para falar de experiências pessoais, fazer partilhas e ainda ler um poema de Fernando Pessoa que também não fugia ao tema.

É curioso como um clube de escrita traz muito mais que a escrita em si e, mês após mês, se transforma em muito mais do que isso: um grupo de amigos, por mais lamechas que isso soe.