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O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Verão no rio

07.10.20, Elisa

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Este texto foi escrito, em português do Brasil, pelo Eduardo Fernandes,  em Agosto, para o tema Verão.

 

No Rio de Janeiro não há verão, ou melhor, só há verão. A não ser ali em agosto, quando algumas nuvens aparecem de cara fechada e os cariocas tiram do armário as suas pesadíssimas sweatshirts de algodão para suportar os terríveis dezoito graus que se advinham.

No Rio de Janeiro não se bebe whisky, a não ser que se seja rico e que se queira impressionar al- guém. Mas é uma impressão daquelas que precisa ser feita sob o efeito do ar condicionado e com um copo cheio de gelo.

No Rio de Janeiro não há sol sem calor, e todo o carioca assiste aos filmes de cowboy a pensar que ali devem ser todos malucos. Afinal quem, na sua sã consciência, sairia no meio de um deserto, sob um sol escaldante, vestindo um casaco de pele e luvas a condizer?

Se o velho oeste fosse no Rio, os cowboys vestir-se-iam mais ou menos como os traficantes de uma favela: com calções de surfista e chinelos nos pés.

- O que que vai ser, amigo, Caninha?

- Com um calor desss? Tá maluco, véio? Dá uma coca-cola bem

- Pô, cara, só tem Pepsi.

- O quê? — Bam! Bam! Bam! — Então toma aqui o seu pagamento adiantado para aprender a tra- tar bem o freguês.

O verão do Rio de Janeiro apanhou um voo da Ibéria, porque os da TAP estavam muito caros. Sen- tiu a brisa fria enquanto comia castanhas assadas ao lado da entrada do metro do Marquês de Pom- bal, e chutou as folhas caídas enquanto caminhava até o café mais próximo. Pelos idos de outubro, comprou um sobretudo bege, igual ao do highlander. Depois comprou um casaco como deve ser, de lã, e sentiu-se pronto para o natal.

O verão do Rio percebeu que, em Portugal, o natal é igual ao verão. Está toda a gente de férias ou a pensar nos feriados, enquanto usa o seu tempo livre para aproveitar as promoções de brinquedos do

 

Continente. Nos escritórios, é mês santo. Os clientes sentem muito pouca vontade de reportar novos problemas e os informáticos sentem muito pouca vontade de resolvê-los, então está tudo bem.

O verão do Rio de Janeiro fica dececionado com a virada do ano e com a meia dúzia de fogos que é disparada em Lisboa. Se fossem à Copacabana é que iriam ver o que são fogos de verdade. O carna- val também não é grande coisa, mas impressiona ver aquelas mulheres a desfilar. É preciso coragem para sair de fio dental em pleno inverno.

A beleza está nas estradas, que pelos idos de março ficam cobertas de mato. E o mato em Portugal é tão bonito, tão especial. É amarelo e azul e roxo e chama Van Gogh para sair do seu descanso e pin- tar no verde o seu impressionismo.

Quando as sardinhas aparecem o verão do Rio de Janeiro fica triste. Está na hora de voltar para onde ele sempre é. A não ser ali em agosto, quando algumas nuvens resolvem aparecer de cara fe- chada e os cariocas tiram do armário as suas pesadíssimas sweatshirts de algodão para suportar os terríveis dezoito graus que se advinham.

 

O campo foi à praia

06.10.20, Elisa

praia chapeu de chuva

 

Em Agosto, lançámos o tema Verão como mote para a escrita. A Ana Paula Campos respondeu ao desafio com um "Campo que foi à praia".

 

Terça-feira. Tarde de praia, vento e sol. A pequena extensão de areia, encaixada entre dois pontões, encontrava-se apinhada de gente.

Sentadas sobre uma pedra do pontão, duas figuras improváveis: duas mulheres na casa dos setenta anos, se não irmãs de sangue, certamente irmãs de vida, as fartas cabeleiras grisalhas presas num toutiço, a meio da cabeça, a bata de uma castanha às florzinhas beges, a da outra azul acinzentado às florzinhas brancas, pernas grossas, inchadas e cheias de varizes, o corpo baixo e largo. Juntas, segurando sobre as cabeças um chapéu de chuva de cor indefinida, encaixavam-se entre a família com os miúdos que não paravam quietos e a senhora em meio traje – leia-se topless – e a amiga em diminuto traje completo.

A certa altura, cansadas de observar apenas o que se passava no seu estreito raio de visão, fecharam o chapéu, enrolaram na toalha de praia os poucos pertences que tinham com elas – uma carteira pequena, um pano de cozinha e um pacote de lenços – e levantaram-se. Passos vacilantes de quem não está habituado a caminhar na areia, as duas foram passeando pela pequena praia, por entre os veraneantes, incomodando aqui, desviando-se ali, comentando uma com a outra, provavelmente, os despreparos em que o mulherio se espamarrava ao sol. Devagar, devagarinho, lá chegaram ao pontão do lado oposto, junto do qual descansaram. Mais uns dedos de conversa e iniciaram o caminho de volta, desta vez pela beira-mar, pés dentro de água, batas arregaçadas. Ao chegarem à pedra onde haviam deixado os seus bens, sentaram-se, novamente, juntas, abriram o chapéu de chuva e assim continuaram a conversa que se presumia fiada.

O à vontade das duas mulheres e o sorriso, sem troça, dos presentes, pintaram de ternura aquela situação inusitada. Naquela tarde, o campo foi à praia.