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O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

A Rita irrita-me

10.07.20, Elisa

 

<span>Photo by <a href="https://unsplash.com/@caities_cakes_amsterdam?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Caitlyn de Wild</a> on <a href="https://unsplash.com/s/photos/cake?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Unsplash</a></span>

Para a  Andreia Esteves escrever não é novidade, ou não fosse ela já uma escritora freelancer. Ainda assim, pela primeira vez este mês, juntou-se a'O Primeiro Capítulo, numa estreia que nos impressionou. Aceitou o desafio de escrever sobre Amizade e trouxe-nos, de forma textual, a Rita, sua amiga na adolescência. 

Hemingway diz para escrevermos com clareza sobre aquilo que dói, mas eu nem sempre tenho essa disciplina. Ora estou sentada à espera de uma inspiração divina, ora injecto vitaminas de confiança só para depois olhar para o texto com desdém e concluir que está uma porcaria. Nestes momentos de frustração de escritora amadora, lembro-me da Rita. Já não tenho 13 anos e eu e a Rita já não achamos que o mundo gira à nossa volta e que somos as melhores escritoras do mundo. Antes pensávamos que sim. Julgávamos que todos à nossa volta eram uns sortudos por poderem presenciar o nosso génio e mais tarde vir a dizer “eu conhecia-as antes da fama, sabias?”
É engraçado, agora que penso nisso. Acho que era isso que os impressionistas queriam dizer quando afirmavam gostar de saber pintar como as crianças. Talvez não se estivessem a referir à técnica propriamente dita, aos traços e à cor, mas sim à inocência e ingenuidade infantil.
De facto, quando somos crianças, achamo-nos capazes de tudo. É só com o confronto da adolescência que a auto-crítica nasce. Após esse momento, não mais somos capazes de recuperar o espírito de ignorância infantil que nos levava a pintar dois riscos vermelhos numa folha, dizer que tínhamos desenhado a mãe e proclamarmos a criação de uma magnífica obra de arte. Talvez crescer seja isso. Aprender a lidar com nulidades burocráticas desejando secretamente obter a confiança que transbordava quando frequentávamos a pré-primária.
A Rita dava-me confiança. Reuníamo-nos na sua sala de estar e discutíamos a última coisa que tínhamos escrito com um ar sério e importante. Era suposto sermos imparciais, mas eu não conseguia dizer uma palavra negativa a uma amiga. Ela também não. Normalmente, era quando lanchávamos que a inspiração para escrever surgia. Nessas alturas, deixávamos tudo para trás: o bolo de chocolate, as cerejas, o que quer que fosse e descíamos pelas escadas a correr, na ânsia de encontrar uma esferográfica e um bocado de papel.
Quando voltávamos a subir as escadas, ela oferecia-me sempre mais uma fatia de bolo, mesmo depois de eu lhe dizer que já estava cheia.

Por vezes, a Rita também me conseguia enervar. Como quando ia ao armário dos jogos e tentava explicar-me novamente como se jogava xadrez, mesmo sabendo que eu era um caso perdido e nunca decorava as regras. Quando trocávamos livros das nossas estantes e ela nunca cumpria o prazo de devolução. Quando reparava numa roupa nova que eu trazia e não comentava. Nem que me ficava bem, nem mal, nem assim-assim. Quando se deixou crescer e abandonou a sua companheira de escrita.
Hemingway tem razão. Escrever dói e escrever sobre a Rita dói um pouco. Mas também liberta. Ao escrever sobre ela, não consigo deixar de ouvir o som do seu riso contagiante, quando olhava para mim do outro lado da mesa e dizia: “Senhora escritora, tira outra fatia de bolo.”

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