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O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Cozinhas acatitadas

14.07.20, Elisa

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Ana Carolina Helena, que se juntou ao grupo logo no primeiro encontro, mas, vicissitudes da vida, só agora pôde regressar. A participante aceitou os dois desafios: falar sobre amizade e integrar diálogo em prosa. Com um texto destes só podemos dizer: bemvinda de volta, Ana Carolina!

 

- Vou pôr água a aquecer.

- Dois segundos. – vociferei para o ar, atropelando mentalmente as últimas palavras da página que estava a ler, mal sentada na cadeira, enrolada sobre mim mesma.

Sempre viveste em casas com cozinhas acatitadas e janelas estreitas, onde a luz entra amarela, mas tímida, como se fossem sempre seis da tarde de uma tarde de Setembro, das réstias do Verão. Uma luz que amolece qualquer um, mas não a ti. As nossas tardes de estudo foram sempre feitas de uma sonolência concentrada que não se pode medir em minutos, mas ao ritmo dos capítulos de matéria desbravada, apenas interrompida pela fome de horas e horas em que nos fazíamos companhia, alheados, cada um nos seus novelos mentais.

- Massa?

- Sim, é mais rápido. 

Concentro-me sempre muito quando tenho que acender um fósforo, em especial quando tenho de acender um fósforo numa das tuas cozinhas amarelas. Os bicos antigos a gás, que raramente limpas com pormenor, são por vezes teimosos e não pegam logo à primeira. Procuro fazer deste ato, à partida simples, mas que a mim, como já notei requer uma certa concentração, o gesto mais subtil, mais harmonioso e coordenado, para que nada te desperte desse sono de reflexão. A minha maior prova de amizade é saber coibir-me de tiradas banais e velar-te esses silêncios profundos, de onde regressas sempre com os olhos sempre mais brilhantes.

- Já acabei o livro que me trouxeste há umas semanas.

- Ai sim? E que tal? Encontraste-lhe alguma parte interessante?

Devo ser uma figura curiosa de ver quando faço estas perguntas tolas, já a saber que sim, e que vais já discorrer sobre aquilo que te chamou mais a atenção. E que daqui a uns minutos vamos estar a sorrir-nos, satisfeitos, por nos termos demorado um pouco mais exatamente no mesmo parágrafo banal de um capítulo qualquer. Em miúda, os livros eram os meus melhores amigos. Lia-os acocorada atrás das cortinas bege e gastas pelo sol da minha avó, escondida dos barulhos da casa. Nas tuas cozinhas amarelas, sempre houve silêncio, de modo que deixei de me esconder, mas continuo a virar as páginas contorcida sobre a cadeira das visitas.

- Se eu um dia fosse trabalhar para fora, ias-me lá visitar?

- Claro – disse, sincera, mas com um tom jocoso e a sobrancelha esquerda levantada -, ia lá visitar-te a uma Sexta-feira à noite, cozer-te esparguete quando chegasses a casa espapaçado da semana no escritório. Vá, apaga isso. Vamos jantar.

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