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O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Teté e o bolo

13.07.20, BeatrizCM

 

O tema do encontro d'O Primeiro Capítulo de Julho foi "Amizade", mas também poderia ter sido... açúcar!

O texto que se segue, da autoria de uma das organizadoras do grupo (Beatriz Canas Mendes, ou seja, eu!) também menciona a existência dum bolo, como o da Andreia Esteves. No entanto, apesar dessa traço comum, é bastante diferente. Ora, leiam...

 

Sempre poderia fingir que a festa era sua. Os pratos estavam na mesa, os convidados prestes a chegar. Havia pudim de ovos e brigadeiro para a sobremesa, apesar de o prato principal ser uma salada com rúcula e tomate cherry. A toalha da mesa era azul escura, para não se verem manchas de molho e das bebidas nas fotografias.

- E que tal um chá frio? Estou cheia de sede - comentou a amiga Júlia, ofegante por causa do calor, do entusiasmo e do barrigão. Era o terceiro bebé, o primeiro rapaz, e oxalá nascesse como o pai, cujas qualidades já se verificavam no filho por nascer (senhor do seu nariz, noctívago, comunicativo, sempre sorridente desde a segunda ecografia). Júlia movimentava-se pela sala com graça, embora mal levantasse os pés e tivesse engordado vinte quilos. Dispunha pequenos papéis em cima da mesa com os nomes das convidadas e de alguns dos maridos que se iriam juntar, mas as crianças tinham um espaço só seu, à sombra do pessegueiro no jardim. Júlia sorria e trauteava os favoritos da rádio, enquanto dava os últimos retoques na decoração.

Sempre poderia fingir que a festa era sua; mas, com tanta certeza quanto a de se chamar Teresa, Teté faria tudo ao contrário. Provavelmente não faria sequer uma festa, e seriam as amigas a organizá-la como surpresa, porque o primeiro bebé de cada uma é sempre especial. Ao segundo, com a novidade desvanecida, passariam a combinar um almoço com prendas. Ao terceiro, apenas uma mensagem de parabéns e muitas felicitações efusivas no Facebook.

Sem rancor ou vaidade, ultimamente Teté acumulava e-mails com pedidos de opinião sobre livros auto-publicados e primeiras obras escritas, redigidos por ilustres desconhecidos que lhe descobriam o endereço no site da editora. Aqui e ali, abria e-mails da imobiliária e confirmações de consultas com a terapeuta. Não falava com o ex-marido há duas semanas, mas até estava aliviada.

Esta era a terceira gravidez de Júlia em cinco anos, por isso ela mesma é que se encarregara do chá do bebé, e também por isso Teté já começara a esquecer-se da amiga magra, que se enfiava em mini-saias e tops transparentes para ir jantar fora. Teté tinha tantas saudades desses tempos, em que o útero ainda não se tornara uma ferramenta de validação tanto pública quanto privada, mas de momento admirava-se perante o privilégio de assistir a tamanha alegria na vida alheia. Afinal, Júlia era a sua melhor amiga.

Finalmente, Júlia sentou-se para beber o chá de mirtilo. Ainda só estavam ali as duas, sem que ninguém as pudesse ouvir durante o quarto de hora seguinte.

- Não sei o que faria sem ti, meu doce – disse a grávida.

- Provavelmente, pagarias a uma empresa de catering – Teté riu-se – mas a verdade é que fiz tudo como se também fosse uma festa para mim.

E, se calhar, era mesmo uma festa para si, um membro necessário e imprescindível na vida daquela família. Dentro de semanas, nasceria o seu afilhado António. Oxalá revelasse ter todas as melhores qualidades, não só do pai, como ainda da mãe e das irmãs mais velhas. Oxalá pudesse ser sempre feliz, rodeado de gente tão feliz como aquela mãe que lhe calhara.

Para comemorar, Teté não quis esperar pelos convidados, partiu a primeira fatia dum bolo de cenoura acabado de entregar e esqueceu-se dos seus bebés que nunca viriam a conhecê-la.

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