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O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

O Primeiro Capítulo

Ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Verão na cidade

15.09.20, Elisa

"Quem volta traz a melancolia do regresso mascarada pela pele caramelizada e o ocasional escaldão no peito." Um texto de Andreia Esteves sobre o tema Verão.

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O relógio da Sé bate as nove horas e o calor é já insuportável. Caminhando pelo passeio de calçada irregular e fazendo um esforço para se manter na sombra dos toldos, Lúcia sabe quem já foi e quem está quase a ir. Quem volta traz a melancolia do regresso mascarada pela pele caramelizada e o ocasional escaldão no peito. Os que ainda esperam os seus dias de felicidade obrigatória à beira-mar, apressam mais o passo na ânsia de acelerar o tempo. 

Parando no bebedouro junto ao parque, Lúcia refresca o rosto suado. Em criança, o seu Verão era uma suspensão da realidade. Três meses em que ignorava agradavelmente a vida, preenchendo as tardes com livros, brincadeiras no jardim e mergulhos na piscina. Agora sentia a estação como um excesso. Tudo transbordava para lá dos seus contornos com contrastes bem nítidos: sol e sombra, calor e água, casa e rua. Sem meio termo. 

Passando pela esplanada, reconhece o novo empregado: 

- “Bom dia, Miguel” – cumprimenta-o com um breve aceno. 

- “Ah, bom dia Dona Lúcia” – levantando o olhar, o rapaz responde-lhe com um sorriso que se desvanece um pouco, como quem esperava outra pessoa. 

O casal francês que se senta agora a tomar o pequeno-almoço discute em sussurros, enquanto noutra mesa uma rapariga loura de óculos escuros fotografa o seu pastel de nata de todos os ângulos possíveis. Lúcia fixa esta imagem. Como é fácil para os turistas deambular pela cidade. Como é lindo percorrer ruas que não se conhece com a certeza do temporário, a visão toldada pela alegria estúpida do Verão. Nada os prende aqui. Não têm de suportar o peso das memórias que a cidade acarreta. Nem os piropos, o cheiro a esgoto, os bonitos canteiros arranjados em cada varanda, tão deslocados da restante paisagem. 

Por que é que ainda tentam? Não vale de nada fingir que é possível ordenar. Não há como conter as flores nos bonitos canteiros, nem as pedras nos passeios, é só olhar em redor e perceber que tudo transborda, mais e sempre. As ervas daninhas que insistem em crescer, os velhos perversos que insistem em assobiar, o odor fétido do esgoto que acentua com o calor e cá dentro só este sufoco, este sufoco, este su... 

No fim da rua, caminhando na direcção oposta, avista uma jovem morena com um lindo vestido de alças, verde esmeralda. Ao seu lado caminha Álvaro. Ao pé dela parece tão mais velho. Bochechas rosadas e a pele queimada do sol. Como foi capaz de a trazer aqui? Estacionado a dois quarteirões estará o carro. Fechando os olhos, Lúcia apercebe-se, com raiva, que ainda sabe a matrícula de cor. Ele voltou sem melancolia como se vivesse um Verão eterno. O relógio da Sé marca nove e um quarto. Já é hora de eu partir.